Por Rokatia Kleania
Professora
Estavam no fundo do poço. Como lá chegaram não sabiam ao certo. Ou, talvez, conhecessem tão bem o motivo que preferissem torná-lo um sujeito oculto, como forma de não reviverem todas aquelas velhas dores que aspirina nenhuma é capaz de curar. Porém as cicatrizes deixadas pelas desinências do verbo amar logo denunciariam os sinuosos caminhos que os levaram até aquela funda, escura e assustadora cratera emocional.
Em meio àquela total escuridão, compreendiam que só havia uma coisa a fazer: abrir os olhos e encarar a sombria realidade que os rodeavam.
Ao se desvencilharem das pálpebras inchadas de tantas noites choradas, suas retinas provaram da negra miopia da solidão. Só algum tempo depois, quando a vista já se acostumara com toda aquela negritude, eles puderam enfim se perceber frente a frente.
De início, eram apenas acinzentados vultos humanos. Mas, aos poucos, puderam contemplar o brilho que, mesmo afogado em tanto pranto, ainda morava no olhar do outro. E era tão intensa a luz que irradiavam que suas noites viraram dias agradavelmente intermináveis.
Doravante aquelas duas almas já não eram mais solitárias. Tinham uma a outra. Viraram amigas, parceiras, confidentes, cúmplices. Dividiam entre si as dores, angústias e decepções. Compartilhavam planos e desejos. Juntas mergulharam em novos projetos. O principal deles: serem felizes.
Novos ventos vieram e para longe levaram aquelas plúmbeas nuvens que por ali pairaram durante algum tempo, que aos olhos alheios podia parecer breve, mas aos seus demorara um século.
Neste instante, puderam enfim apreciar a luz da vida.
Juntos eram fortes. E assim, apoiados um ao outro, levantaram-se e, de mãos dadas, finalmente saíram daquele fosso de amargura em que se encontravam.
E sorrisos adormecidos acordaram. Viraram sóis. Aqueceram aqueles corações que de tão sofridos se haviam cristalizado feito gelo. Mas o gelo agora derretido virara um belo lago capaz de contornar as pedras do caminho e desaguar no rio do amor ou no mar da amizade.
Desprovidos finalmente de qualquer expiação, souberam-se livres.
Livres para partir ou para ficar.
As mãos ainda entrelaçadas se despediram entre chuva de lágrimas e tempestade de sorrisos.
Sabiam que não era o fim. Era apenas o começo de um amor puro, sem promessas, sem mentiras, sem cobranças, sem renúncias, sem algemas. Como deveria ser todo grande amor.
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O amor do fundo do poço de Rokatia Kleania é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com.


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