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segunda-feira, 29 de outubro de 2012 0 comentários

Atração fatal


Rokatia Kleania

Nadav Kander, Erin O’Connor posing as Ophelia, 2004


O pôr-do-sol já se despedia de mim, quando ela mansamente surgiu ao longe. Ainda distante, aquela suntuosa aparição me despertou atenção. O já quase velho coração acelerou repentinamente dentro do peito, numa batida que lembrava o saudoso frevo do último carnaval passado em Olinda. Meu olhar que antes dançava por entre os transeuntes que na busca incessante por saúde e corpos perfeitos faziam suas corridas diárias às margens da lagoa, agora ficara estático diante daquela verdadeira prova da existência de Deus. Haveria amostra mais divinal do que aquele exemplar feminino de beleza? Decerto que não.

Aos poucos fui percebendo, que de forma cadenciada e discreta ela se aproximava. Seu caminhar elegante e suave denunciava que aquela era uma figura feminina singular. Seu vulto agora próximo já se fazia real diante de mim. Nossa! Ela era mais bela do que imaginara minha míope fantasia. É verdade que já havíamos nos cruzado outras vezes, em outros lugares, em outras situações. Naquele início de noite, porém, ao praticamente tocá-la com minha íris, pude enfim perceber o quanto era verdadeiro tudo que diziam seus incontáveis admiradores. Impossível não apreciar tamanha perfeição desenhada sobre aquela branca epiderme.

Ao me flagrar sob o controle de seus encantos, procurei me esquivar. Estrategicamente escorreguei os meus olhos em outra direção, para não ter mais em minhas retinas a doce fotografia da sua face que agora se desenhava em detalhes a minha frente. Contudo já se fazia tarde, o brilho do seu olhar já hipnotizara o meu ser e conduzia sem nenhum pudor o meu querer.

Sabendo-se objeto de desejo de tantos, ela propositalmente brincava com meus sentimentos sem nenhuma compaixão e, como todo ser enamorado, eu totalmente desprovida de receio me oferecia como alvo das suas tão eficazes armas de sedução. Embora aparentemente parecesse observar a todos, o seu achegar me permitiu imaginar que seu olhar distraído me contemplava de modo especial. Conhecedora do seu poder sedutor, ela sabiamente se aproveitou da fraqueza inerente aos apaixonados, que naquele instante em mim fluía, para acenar com um desavergonhado sorriso.

Com a alma inteiramente embriagada e o corpo em total estado tórpido, recusava-me a dizer adeus, embora o último badalar do sino da igreja me avisasse que já era hora de partir. Fiquei ali, pois, por mais alguns instantes, enquanto a via delicadamente deitar-se sobre as águas escuras daquele belo cartão-postal. Seu corpo imerso tentadoramente me convidava a também mergulhar. Dei alguns passos em direção às águas. Totalmente gélida a água em meus pés contrastava com o quente pulsar em meu peito. De repente, em uma orquestrada sinfonia, o coaxar dos sapos, o cri-cri dos grilos e o piscar dos vaga-lumes me acordaram daquele transe lunar e me avisaram que eu não sabia nadar. Olho, pois, mais uma vez para ela e com um saudoso sorriso despeço-me, enquanto ouço ao fundo a Clair de Lune, de Debussi.

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Atração fatal de Rokatia Kleania é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com.  Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdaprofessorinha.blogspot.com.


segunda-feira, 24 de setembro de 2012 0 comentários

Duvido!


Dizem que a saudade é uma palavra que só existe na Língua Portuguesa. Pode até ser. Mas duvido que o Aurélio consiga traduzir em palavras o que eu sinto agora. 

[Rokatia Kleania in Saudades de Quem eu Amava]

quinta-feira, 6 de setembro de 2012 0 comentários

Solidão


Por quem chamar, quando quem mais se precisa já não existe?

[Rokatia Kleania in A voz do silêncio]


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No fundo do poço




Estavam no fundo do poço. Como lá chegaram não sabiam ao certo. Ou, talvez, conhecessem tão bem o motivo que preferissem torná-lo um sujeito oculto, como forma de não reviverem todas aquelas velhas dores que aspirina nenhuma é capaz de curar. Porém as cicatrizes deixadas pelas desinências do verbo amar logo denunciariam os sinuosos caminhos que os levaram até aquela funda, escura e assustadora cratera emocional.



Rokatia Kleania


sexta-feira, 17 de agosto de 2012 0 comentários

Saudades...

Pino Daeni


Quando eu finalmente me for,
carregarei comigo a dolorida saudade...

das fotos que nunca tiramos,
dos sorrisos que não compartilhamos.
dos abraços que não nos demos,
das lágrimas que não deixamos cair,
do adeus que nunca dissemos.

[Rokatia Kleania]


segunda-feira, 9 de julho de 2012 0 comentários

O nascimento


O Aniversário - Chagall


Lábios se doam...
Paixões se beijam...
No estômago borboletas voam...
Novos sonhos nascem...
Velhas dores adormecem...
Solidões dizem adeus...
Corações se entregam...
A vida enfim amanhece...
E assim nasce um novo amor.

Rokatia Kleania, in "O alvorecer do amor".

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A voz do silêncio


Para que gritar?
Há palavras que só em silêncio se pode pronunciar!

[Rokatia Kleania, in A voz do Silêncio]

quarta-feira, 20 de junho de 2012 0 comentários

O encontro frustrado

Por Rokatia Kleania*


É chegado o momento tão esperado. Sento-me à mesa. Abro a gaveta e dela tiro uma folha de papel. Pego a caneta que está no porta-lápis sobre a escrivaninha. Olho de um lado para outro com o intuito de lembrar o que mais preciso para realizar o tão sagrado ato de escrever. Ah! Sim! O meu fiel amigo e companheiro de tantas aventuras textuais. Levanto-me, pois, e pego o meu Aurélio, que se encontra espremido entre A Clarice Lispector e o João Cabral de Melo Neto, num delicioso sanduíche literário, capaz de deixar até o Davi Moura com água na boca.

Volto à mesa. Tudo pronto. Após o ritual inicial, é hora de enfim começar.

Começar? Sim, vamos lá! Escrever é preciso...

Observo, então, aquela cândida face de papel ali na minha frente. Deitada e desnuda, ela me olha feito uma amante que espera ser desvirginada pelo seu amado. Ficamos segundos, minutos assim, entreolhando-se como um casal recém enamorado. E nessa paquera que parece eterna, comporto-me com a timidez que me é peculiar nos primeiros encontros amorosos. E destarte continuo ali, estática, imóvel, inerte.

A folha continua me olhando. Silenciosamente, me pede um poema, um conto, um bilhete, uma lista de compras que seja. Mas o que posso eu escrever, quando a mente perdida divaga no nada, buscando por algo que sequer sabe o que é? O que faço, se a caneta, diante da inalterada página, dança num bailado sem ritmo e sem par?

E agora? O que fazer? O que dizer quando as palavras escapam por entre os dedos parecendo fugir do papel que, palidamente, me encara com um olhar assustado e inquieto de quem anseia, há tempos, pelo especial momento de ser totalmente submerso por uma avalanche de versos? O que digo eu à página em branco que, impaciente, procura em mim o seu existir?

Não é o rasgar e o amassar que lhe tiram a vida. Ela sabe que vem ao mundo sozinha, branca, vazia, sem vida. E sabe também que apenas as palavras são capazes de encher de cor o seu viver. Só as palavras podem dar sentido ao fato de ser o que é.

Mas as palavras não vêm...

Pergunto-me, pois, por onde andarão todos aqueles sentimentos que por tantas vezes inflamam meu peito, me roubam o ar e apertam a garganta querendo sair. Aonde foram parar as lembranças daquela noite enluarada na praia, da viagem de férias, do telefonema no meio da noite, do vizinho chato ouvindo Pink Floydno último volume, do vendedor assanhado do mercadinho da esquina que sempre tenta pegar na minha mão enquanto me passa o troco?

Olho mais uma vez para o papel. Só então percebo que seu aspecto já não é mais virginal. Sua face, antes pura, descobre-se agora maculada pelo violento garatujar de minha caneta. Em seu corpo, só riscos que nada dizem, nada mostram, nada são.

Daquele único e especial encontro o que restou?

Rabiscos... Só rabiscos... Nada mais.



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* O encontro frustrado de Rokatia Kleania é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdaprofessorinha.blogspot.com.

segunda-feira, 11 de junho de 2012 0 comentários

Poderosas aspirinas

Por Rokatia Kleania*





O mundo é das aspirinas: fato.


Duvida? Então experimente ficar resfriado, com dor de cabeça e dores musculares ou ainda com alguma inflamação. Não. Não importa a causa, muito menos o estágio ou a intensidade de sua enfermidade, mais cedo ou mais tarde, você vai ouvir um “Toma uma aspirina que passa!”. E o pior, aliás, o melhor é que passa mesmo! 


Não adianta vir me dizer que minha tese não tem base científica totalmente sustentável. Para mim, não há argumento mais forte que o alívio obtido instantes depois de tomar uma ou duas aspirinas. Ah! É inenarrável a prazerosa sensação de ausência de dor, principalmente, logo após experimentarmos esse intenso, constante e dolorido sofrimento físico.


Sim, já sei! Você vai me dizer que automedicação é algo errado, perigoso, que muitos riscos pode trazer à saúde, blá, blá, blá. Isso eu sei e, se um homem fosse, talvez eu já estivesse até careca por ser disso tudo ciente. E daí? Atire a primeira pílula aquele que nunca tomou um composto branco-cristalino de ácido salicílico?


Porém se engana quem pensa que os poderes aspirínicos param por aí. Aos desavisados, vale informar que a aspirina não se limita a ser somente um antipirético e analgésico. Ela possui em seu cinto branco de utilidades outras mil e uma serventias, comocontrolar a caspa, acabar com calosidades dos pés, aliviar picadas e ferroadas, tirar manchas de ovo das roupas, recuperar a cor do cabelo alterada pelo cloro e tirar manchas de suor das roupas. Há também estudos que mostram que aspirina pode reduzir o risco de vários tipos de câncer. Isso sem falar que ainda podemos usar o seu superpoder fertilizante em flores e plantas. Se disso não sabia, certamente é porque você nunca tentou descobrir o que é realmente uma aspirina, muito menos experimentou pesquisar sobre esse medicamento na rede mundial de computadores.


Portanto não há como negar, as aspirinas estão com tudo. Elas acalmam, limpam, produzem e curam. E, não se surpreenda se, de repente, nas crônicas esquinas da vida, uma aspirina cruzar o seu caminho e, de cima um belo salto alto, lhe seduzir, encantar, entreter e, quiçá, até arrebatar seu coração, lhe conduzindo por antigas e novas trilhas, em viagens ora banais ora fantásticas. Afinal elas podem tudo. O mundo é das aspirinas.




Publicado originalmente em 07/04/11 em www.aspirinasurubus.blogspot.com.
 
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